terça-feira, 1 de março de 2011

Questão de alma

Andam dizendo por aí que adoeci. Estou fanático demais pelo Flamengo. Já não como, durmo, trabalho ou estudo sem falar no meu time de coração. Não me dedico mais à minha esposa, pais e amigos como me devoto ao Pavilhão Vermelho e Preto. Nas conversas de cama, mesa e bar já não se ouvem outra coisa se não as glórias do Mais Querido. Andam até dizendo que vou pôr tudo a perder: mulher, emprego, todo o meu (pouco) dinheiro e, pasmem... até a vida! Tudo isso por causa da minha paixão primaz.

Querem que eu seja uma pessoa diferente: não acompanhe mais as resenhas esportivas, não grite após os gols, não xingue o juiz, não reclame das jogadas equivocadas ou dos (raros) revezes de nossa agremiação. Pedem para que eu use outras roupas além do Manto Sagrado Encarnado e Negro, assobie outras canções além dos cantos de nossa torcida e leia outros jornais que não aqueles que exaltam os triunfos de nosso clube do coração.

Há de chegar o dia em que trocarei o samba pela ópera. Abandonarei a roda de batuque harmonioso e gingado irresistível pelos refinados concertos líricos do Municipal, freqüentados pela alta sociedade carioca. Deixarei de tomar o chope das sextas-feiras com os colegas de trabalho e rumarei às degustações ao lado dos enólogos, especialistas nos aromas e sabores de vinhos franceses, italianos e chilenos. Doarei meus uniformes rubro-negros aos necessitados e vestirei apenas camisa de puro linho para dentro da calça engomada, sapato engraxado e caminharei pelas ruas em passos elegantes, sutilmente efeminados.

Sobre futebol, falarei apenas de quatro em quatro anos, em tempos de Copa do Mundo e indagarei a quem estiver mais perto: “Ganso e Pato são jogadores da mesma família?” Ao perguntarem sobre meu time do coração, responderei sem titubear: “Não ligo mais para isso, não. Esses foram outros tempos. Agora só torço para o Brasil”.

Quando esse dia chegar e me encontrares em uma esquina qualquer da cidade, não se aproxime muito. Sequer cutuque meu ombro ou tampouco acene do outro lado da rua. Muito menos chame meu nome, pois não mais atenderei. Sequer lembrar-me-ei de ti ou terei qualquer lembrança de minha vida regressa. Quando esse dia chegar, eu não serei mais eu.

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