Mal havia soado o apito final. Desliguei a televisão e desci os 15 andares que me separavam do bar mais próximo. Duas cervejas, por favor, solicitei ao amigo Eucimar, já adiantando o pedido que poderia me deixar um pouco mais calmo. Poucas vezes senti a morte tão de perto. Jurei que desta vez eu passaria desta para melhor, diante da tensão que se apossara de mim. Sozinho no domingo à tarde no apartamento vazio, gritar à janela e enviar mensagens de escárnio via SMS ao amigo tricolor era o que ajudava a descarregar a “naftalina”, como diria o folclórico Peu, nos idos dos anos 70. Ainda morro disso. Mas, morrer campeão, quer destino melhor?
Talvez nem mesmo Nelson Rodrigues previsse um Fla x Flu assim. Fraco tecnicamente, mas riquíssimo em emoção e personagens: Rafael “She Ra” Moura, autor do gol mais impedido de toda a história do ludopédio mundial; Willians, o leão de chácara mais feroz que já pisou os gramados nacionais; Thiago Neves, o homem dividido entre duas bandeiras; e Felipe, o rei macedônico mais querido do Brasil.
Se o clube mais purpurinado de todo o território brasileiro tem o Sobrenatural de Almeida entre suas fileiras de torcedores, nós temos algo que nenhuma outra agremiação desportiva, em nenhum outro rincão interplanetário, tem. O símbolo de toda a nossa tradição, representante de todo nosso passado de glórias, identidade indelével de todo rubro-negro, ícone de raça, amor e paixão, capaz de superar o mais insuperável dos desafios e sobrepujar o mais temível adversário: é ele, o nosso Manto Sagrado.
Na tarde deste domingo foi o que nos garantiu a vitória sobre as moças efeminadas mais maquiadas do futebol mundial. Nosso Manto provou definitiva e inexoravelmente seus poderes sobrenaturais e sua força de mais de um século de história. Foi como se todos os craques rubro-negros de todos os tempos tivessem encarnado naqueles onze pedaços de pano e conferissem dons mágicos aos limitados Galhardo, Wellington, Alvim, Fernando, Wanderley e, sobremaneira, a Willians, o gigante da meia cancha. Não, senhores, nenhuma outra equipe do planeta possui uma camisa com tamanha mística quanto o Manto Sagrado Rubro-Negro.
Na lógica, nada poderia tirar a vitória das meninas do laranjal. Após o faniquito coletivo instaurado depois da classificação no certame continental no meio da semana, pisaram o gramado do Estádio Olímpico como se fossem as top models internacionais que pensam que são. O fraquíssimo soprador de apito, além de inverter todas as faltas e arremessos laterais em favor das donzelas aristocráticas, ainda teve a desfaçatez de validar um gol em impedimento ululante, como diria o Anjo Pornográfico. E nós? Além do empate desenxabido diante do insignificante Horrorizonte, no meio da semana, ainda perdemos nosso gladiador Maldonado e Ronaldinho “The Best of the world” Gaúcho, em cima da hora. Achou pouco? Pois, com menos de 10 minutos de jogo, ficamos ainda sem o jogador mais regular do futebol interplanetário da última meia década, o melhor lateral-direito do globo, Léo Moura.
O placar de 1 a 0 a favor do time de futebol feminino mais afrescalhado de todos os tempos parecia irreversível. Nosso bravos atletas, apesar da inegável entrega, não pareciam capazes de chutar uma bola na direção de um cone localizado a um metro e meio de distância. Foi quando uma facho de luz resplandeceu por entre as negras nuvens que encobriam o céu do Rio de Janeiro. O clarão dirigiu-se rumo ao corpo de um certo Willians, que envergava a camisa oito do Manto Sagrado Encarnado e Negro. Sim, era ele, o espírito de Zizinho, o “catedrático”, como descrevera certa vez o locutor Oduvaldo Cozzi. Incorporado em Willians, Zizinho, como nos velhos tempos, pôs a bola na cabeça de Thiago Neves que só teve o trabalho de testar para o fundo do gol feminino.
Na cobrança de penalidades, mostramos mais uma vez qual o clube mais imponente do mundo. Mesmo sem contar com a sorte dos cobradores mais eficientes, nossos meninos provaram o que é a pele rubro-negra. Não culpo Renato Abreu e Thiago Neves, pois já nos ajudaram em outros momentos e julgá-los “amarelões” seria fácil demais neste momento. Mas não podemos deixar de enaltecer a frieza de Galhardo e Diego Maurício. Sim, não me esqueci de Bottinelli, David Braz, Deivid e Felipe, que também cumpriram com suas obrigações (sim, porque pegar pênalti mal cobrado é dever de um goleiro do nível de nosso soberano arqueiro dos Bálcãs) cívicas perante a Nação Rubro-Negra. Mas as cobranças dos dois jovens atletas recém-chegados das categorias de base provam o talento nato dos jogadores formados no clube. Só eles entendem verdadeiramente o significado do Pavilhão Encarnado e Negro, simbolizado pela bandeira mais linda do mundo tremulando no lugar mais alto, acima de todas as demais.
P.S.: E que venha o nosso vice de fé.

