Na disputa entre os dois melhores times do primeiro turno, venceu aquele com melhor aproveitamento, defesa menos vazada e mais jogadores talentosos dentro de campo. O Flamengo é campeão da Taça Guanabara com legitimidade e justiça e até agora não ouvi um argumento sequer da torcida arco-íris dizendo o contrário.
Não me venham dizer que ganhamos de “um time de menor investimento”. O Boavista está longe de ser um América ou um Bangu da vida. É uma equipe de aluguel, formada por jogadores de empresários, bem treinada por Alfredo Sampaio – velha e felpuda raposa do ludopédio fluminense – e que sequer tem tanta identificação assim com a cidade de Saquarema. O clube leva seus treinos ao bem equipado centro de treinamento do Tigres do Brasil, em Duque de Caxias, local de invejável infraestrutura. Por essas e outras, chegou, com méritos, à final, após vencer o Vice da Gama, na fase de grupos, e as meninas do laranjal nas semifinais, em cobranças de penalidades.
Na partida do último domingo, nosso amantíssimo treinador, mais uma vez, quis aprontar das suas. Não bastasse escalar Ronaldinho Gaúcho como centroavante, lançou Bottinelli como principal articulador de jogadas do time. O argentino, que atuou apenas 45 minutos na partida contra o Nova Iguaçu, há quase um mês, teve mais uma atuação discreta. Será que Luxemburgo imaginou que, mesmo assim, “Botti”, com já vem sendo chamado pelos companheiros do “bonde”, jogaria uma barbaridade? Por isso é que não cabe aqui criticar o jogador que, acredito, ainda pode mostrar qualidade vestindo o Manto Sagrado.
No segundo tempo, Luxa lançou o xodó Negueba. Além da já conhecida "alegria nas pernas", o moleque mostrou que tem mesmo é o diabo no corpo. Conseguiu (com o perdão do trocadilho) botar fogo na partida e incendiar seus companheiros que pareciam um tanto quanto acomodados e convictos que decidiriam o jogo a hora que quisessem.
O Boavista jogava fechadinho, como era de se esperar, e só assustava a torcida do Mengão em bolas alçadas na aera. Mas os sustos se deviam mais ao temor do estabanado Wellington, da limitação técnica de Egídio, dos passes errados de Willians e da má forma física de Maldonado, do que propriamente de grandes lances dos atacantes da equipe saquaremense.
Thiago “Renegerado” Neves foi o melhor em campo. Incansável, podia ser visto quase que como figura onipresente em todas as partes do gramado. Criou as melhores jogadas do time enquanto Ronaldinho esteve preso à marcação adversária e Bottinelli se perdia na ausência quase que completa de entrosamento. Foi dele e de Ronaldinho a jogada que resultou no gol do título, do qual falaremos adiante.
Léo Moura foi outro gigante. Como vem acontecendo nas últimas partidas, era o homem do desafogo pela direita, o toque mais lúcido na bola, a jogada esperada por todos mas não executada por ninguém. Merecia um gol. Teve a chance no primeiro tempo, quando bateu cruzado e a bola desafortunadamente passou raspando a trave. No segundo, em arrancada quase no final do jogo, invadiu como quis a grande área até chegar no bico da pequena. Poderia ter afundado o goleiro e furado a rede. Mas não foi fominha e cruzou para trás, no que teve a jogada interceptada pela defesa. Uma pena!
Mas Ronaldinho mostrou para o Brasil por que, mesmo sem estar mais no auge de sua forma física e técnica, ainda é um jogador capaz de decidir as partidas e dar títulos à Nação. Enquanto esteve preso à zaga do time de Saquá, deu trabalho, ao mesmo tempo, a dois defensores, o que permitia a movimentação de Thiago Neves e Bottinelli. Quando da entrada de Negueba e Diego Maurício, recuou um pouco mais e conseguiu tabelar com os demais jogadores de armação, criando as oportunidades mais perigosas do time.
Foi numa dessas que surgiu o gol que nos deu a 19ª Taça Guanabara de nossa história. O toque na intermediária para Thiago Neves obrigou o brucutu do time verde a cometer falta desclassificante. Confesso que pedi que Renato fosse para a bola, devido aos aproveitamentos recentes dos dois cobradores da equipe. Mas Ronaldinho pareceu concentrar-se e evocar as vibrações de Zico e Petkovic. A curva desferida pela bola deixou incrédulos tanto a torcida quanto os jogadores adversários. O bom goleiro Tiago, que minutos antes retardava o tiro de meta para que a partida fosse decidida nos pênaltis, nada pôde fazer.
Depois, restou aos jogadores comemorarem ao som do “Bonde do Mengão sem freio” e embalar a Nação Rubro-Negra de todo o Brasil em mais uma tarde de alegria.