A rodada da última terça na Champions League teve como destaque a vitória do Internazionale de Milão sobre o Bayern de Munique por 3 a 2. A vitória classificou a equipe do técnico Leonardo para as quartas de final do certame, mas mostrou algo que pode preocupar o torcedor brasileiro. A má fase do goleiro Júlio César é visível. Mais uma vez o outrora melhor goleiro do mundo levou um frangaço que, não fosse o craque Eto´o, poderia ter eliminado a equipe.
Júlio César já vai para a casa dos 32 anos e parece que o gol sofrido contra a Holanda o abalou mais do que o normal. Em partida recente pelo Campeonato Italiano já havia batido roupa e sofrido o gol. O tento levado contra o time alemão apenas comprova a falta de confiança e desatenção por que passa o arqueiro. Recordo-me que em seus últimos tempos de Flamengo, Júlio, que já se consagrava com boas defesas, começou a pensar que era o tal. Entregou um jogo ganho contra o Atlético Paranaense na Arena da Baixada ao tomar dois gols em poucos minutos por falhas evidentes.
Claro que é normal um bom jogador passar por uma má fase. Principalmente um goleiro, posição em que um momento de indecisão, desatenção, displicência ou soberba pode custar a vitória de sua equipe e o trabalho de todo um ano ir por água abaixo. Está aí Barbosa como exemplo máximo de como um bom goleiro passa à história como frangueiro e até vilão nacional.
Clube do coração
Mas quero chegar a outro ponto. É um mero exercício de futurologia, mas o exemplo é recorrente ao longo dos anos. Quero dizer que não tardará o momento em que Júlio César virá à imprensa dizer que está com saudades do Brasil, que seu time de coração é o Flamengo e sonha voltar a envergar novamente o Manto Sagrado Encarnado e Negro.
O goleiro faz parte da mesma safra revelada no início dos anos 2000 e que, em pouco tempo, começou a deixar o clube. Faziam parte dele, além do arqueiro, o zagueiro Juan, o volante Felipe Melo e o atacante Adriano. O que esses três têm em comum? Após anos de sucesso na Europa, um breve declínio na carreira fez com que cogitassem voltar à Gávea. O argumento é mais ou menos o mesmo: “Minha casa é o Flamengo”, “Nasci ali para o futebol”, “Não posso parar sem vestir novamente a camisa rubro-negra”, ou algo parecido.
Ainda no primeiro semestre de 2009, Emerson, o Mercenário das Arábias, chorou ao deixar o clube, mas disse que tinha família para criar, que a proposta do Oriente Médio era irrecusável e que um dia regressaria. Foi, ficou um aninho lá e depois passou a vestir o pano purpurinado das três cores efeminadas. Em recente entrevista sobre o episódio, Zico, então gerente de futebol do Flamengo, revelou a farsa. A grana a ser desembolsada para ter Emerson de volta era alta para os padrões do clube na época e o atacante achou pouco o oferecido. Após ouvir a proposta, foi à casa de Alcides Antunes, então cartola do laranjal, que, com o auxílio luxuoso do patrocinador, praticamente dono do clube, fechou negócio rapidinho. Vagner Love é outro exemplo. Sou um fã de seu futebol e torço para a sua volta. Mas, apesar de rubro-negro declarado, não é maluco de trocar os milhões de euros anuais na gélida e obscura Rússia pelo verão, carnaval, cerveja, mulher e a torcida do Mengão. São os valores de nosso capitalismo, meus caros.
Honestamente, desejo que Júlio César, Juan, Adriano e Felipe voltem a jogar o fino futebol que aprenderam nas divisões de base do Mais Querido e que o consagraram na Europa. Mas, sinceramente, gostaria muito mais que Lionel Messi e Samuel Eto´o declarassem aos microfones, em bom espanhol ou francês, que sonham desde criança vestir o Manto Sagrado Preto e Vermelho do clube mais querido do mundo. Somos 40 milhões, não somos? Então, se, além da esmagadora maioria de jogadores de futebol do Brasil é torcedora do Flamengo, por que não pode haver uma criança argentina ou camaronesa que torça para as cores de nosso pavilhão?
Por isso, minha gente, não se surpreendam se, amanhã ou depois, forem surpreendidos com a notícia de que Adriano está assinando contrato com os gambás, o Vice da Gama ou com a agremiação das donzelas maquiadas. Em resumo, o negócio é o seguinte: jogador de futebol só ama três coisas na vida: dinheiro, mulher e cachaça. Se puderem ter essas três coisas, jogando em um clube popular, que garanta boa repercussão na mídia, ótimo. É o que trouxe e continua trazendo jogadores como Adriano, Vagner Love, Ronaldinho Gaúcho, Romário, entre outros para o Flamengo. O resto é quachá-quachá do cu ligeiro, como dizem os baianos. Ou, em bom português, papo pra encher os ouvidos de torcedor otário e vender camisas e souvenirs que hoje movimentam o mundo do futebol business.
Ídolo único
A primeira equipe do Flamengo que acompanhei foi o que se sagrou tetracampeão brasileiro em 1987. Aquele timaço contava com craques consagrados como Leandro, Edinho, Andrade, Renato e Zico, além de jovens promessas que depois viriam a se firmar no futebol brasileiro e mundial como Zé Carlos, Jorginho, Aldair, Leonardo, Aílton, Zinho e Bebeto. Desses, além de Leandro, que encerrou precocemente a carreira, o único que jamais defendeu as cores de outra agremiação futebolística no Brasil foi Ele. Zico transferiu-se para a pequena Udinese, em 1983, aos 29 anos de idade, em tempos difíceis para o Flamengo, que precisava fazer caixa e via na venda de seu maior craque a chance de se reerguer financeiramente. Dois anos depois, voltou para nos dar mais um título nacional, jogando no sacrifício, tomando infiltrações de cortisona no joelho para resistir às dores incessantes.
Por essas e outras que Ele foi, é e sempre será meu único ídolo. De jogadores, técnicos e dirigentes que vêm e vão, espero apenas profissionalismo e não me iludo com beijinho no escudo, lágrimas nos olhos e emoções de conveniência. Minhas únicas paixões e objetos de minha devoção no futebol são as cores, o clube (para o qual pago regiamente as mensalidades como sócio patrimonial), a camisa e a torcida rubro-negra, que jamais me decepcionarão.