segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Meus oito anos

Acho uma grande babaquice essa briguinha ridícula sobre o título de 1987. Todo mundo sempre soube que o Flamengo é o legítimo campeão do certame daquele ano. Até a CBF. Só não o reconhecia por divergências e conveniências políticas entre as direções da entidade e do clube. Mas agora ficou tudo esclarecido. Pelo menos assim, os seguidores da torcida arco-íris não poderão mais dizer “hexa, não. A CBF não reconhece”. Um bando de invejosos que agora devem estar com os cotovelos doendo. E quer saber mais? Que se dane essa taça de bolinha e os bambis, pois reconhecimento maior é ouvir o grito da Nação: somos hexacampeões!

Não vou me estender muito nas chatíssimas explicações jurídicas que comprovam por quê o Flamengo é o campeão daquele ano. Vou sim, reverenciar os heróis daquele título, inesquecível para este humilde escriba. Tinha oito anos de idade em 1987 e posso dizer, “que tanta saudade tenho / da aurora de minha vida / de minha infância querida”, como diria Casimiro de Abreu, no poema "Meus oito anos". Lembro-me como se fosse ontem da maioria das partidas. Minha primeira recordação futebolística data do ano anterior e não foi das melhores. Na disputa de pênaltis da partida válida pelas quartas-de-final da Copa do Mundo do México contra a França, o zagueiro Júlio Cesar e o meia Sócrates desperdiçaram as cobranças de penalidades e decretaram a eliminação do escrete canarinho. Lembro de ter despido a camisa amarela, jogado ao chão e jurado com todas as minhas forças: "nunca mais assistirei a uma partida de futebol novamente!"

Um ano depois, preocupado com o destino do rebento, meu pai, nutrido de todo o amor que se pode dar a um filho, levou-me ao vestiário do Clube de Regatas do Flamengo, na Gávea, para conhecer Ele, Nosso Senhor Zico, que autografou o Manto Sagrado do pequeno torcedor. Foi o momento da conversão ou, como querem os seguidores de outras religiões, da Iluminação. Guardo até hoje o Santo Sudário em local seguro e protegido das intempéries do clima e das vicissitudes do tempo. Se talvez não tenha nascido ali minha paixão - já que, como todo rubro-negro, desde o útero, possuía o DNA encarnado e negro – o sentimento cresceu de forma incomensurável. E foi justamente naquele ano que chegaríamos ao tetracampeonato nacional.

Zé Carlos, Jorginho, Leandro, Edinho e Leonardo; Andrade, Aílton e Zico; Renato, Bebeto e Zinho formavam o melhor esquadrão que já vi vestir o Manto Sagrado, comandados pelo cândido, porém astuto e perspicaz Carlinhos do banco de reservas. A equipe era, sem nenhuma sombra de dúvida, a melhor do país e, se tivesse disputado a Libertadores do ano seguinte, certamente chegaria ao bi continental.

Zico era o capitão e ídolo máximo. Estava na arquibancada do Maracanã quando o Galinho marcou por três vezes contra o Santa Cruz. O último gol, uma pintura numa cobrança de falta que desafiaria até os conceitos físicos de Newton e Einstein. Se o Camisa 10 era o cérebro, Renato era a alma. Na épica semifinal contra o Atlético no Mineirão, vencíamos por 2 a 0 quando o time da casa empatou e pressionava para virar o marcador. A esta altura, Zico – que marcara o primeiro gol numa linda cabeçada após cruzamento de Bebeto - já havia deixado o gramado reclamando da arbitragem que, visivelmente beneficiava os donos da casa. Bebeto, autor do segundo, desperdiçava chances incríveis na frente de João Leite e deixava a Nação em desespero. Foi quando, aos 30 e tantos minutos do segundo tempo, Andrade recuperou uma bola no meio-campo, que caiu nos pés do ponta-direita. Renato,  meiões arriados e canelas à mostra, teve fôlego para arrancar do círculo central, deixar o beque para trás, invadir a área, driblar o goleiro, empurrar para o gol e garantir a classificação do time para a final contra o Internacional.

Nossa defesa contava com o saudoso Zé Carlos, que por tantas vezes salvou o time; Jorginho, já um esboço do vistoso lateral que venceria a Copa do Mundo sete anos mais tarde; os experientes e talentosos Leandro – deslocado para zaga central no final da carreira – e Edinho; além do jovem e promissor Leonardo, igualmente tetracampeão com o Brasil em 94. O meio-campo tinha a categoria de Andrade, autor da assistência sob medida para Bebeto marcar o gol do título contra o Inter; o pulmão Aílton, que além de marcar e correr o campo todo para que Zico e os demais veteranos pudessem brilhar, também subia ao ataque e, por vezes, deixava seus gols. O ataque, além de Renato, tinha Bebeto, que passou em branco na fase classificatória do certame, mas foi decisivo e fez quatro gols nos quatro últimos jogos do campeonato: Fla 1 x 0 Atl-MG, no Maracanã; Fla 3 x 2 Atl-MG (autor do segundo gol), no Mineirão; Fla 1 x 1 Inter, no Beira Rio; e Fla 1 x 0 Inter, no Maracanã. Para completar, na ponta-esquerda, Zinho, à época nem sombra da “enceradeira” que Parreira inventaria em 94. Ao contrário, o jovem Crizam entortava os laterais com dribles desconcertantes e cruzamentos precisos.

A criança que aprendeu a ver futebol com este esquadrão mágico acostumou-se mal. Depois, vieram anos difíceis, com os vices estaduais nos dois anos seguintes, as transferências de Bebeto para o Vasco e de Renato para o Botafogo, além da aposentadoria de Zico, este sim, o duro golpe de realidade nos sonhos do menino (na verdade, um luto que duraria até a sequência de títulos: Copa do Brasil, em 90; Estadual, em 91; e o Brasileiro, em 92, com o time comandado pelo maestro Júnior). Mas a referência de um futebol que aliava habilidade, técnica, garra e aplicação tática jamais sairá da lembrança.

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