Começo este post com uma história do século passado. Os mais jovens talvez não saibam, mas em Rocky III, o garanhão italiano vivia em má fase. Após início de carreira avassalador, passou a ser contestado pela crítica e pelo público. Diziam que só enfrentava adversários inexpressivos que facilitavam suas vitórias. Já ganhava uma certa grana, mas o precoce ostracismo o incomodava.
Então surgiu um adversário à altura: James “Clubber” Lang. O negão, além de ser forte pra cacete, ainda era uma marra só. Insuportável, fazia pouco do passado de glórias do antigo campeão e ainda deu umas porradas no Mikey, o treinador velhinho de Rocky. Para se preparar para a pedreira, o lutador passou a treinar com Apollo Creed, o doutrinador, pugilista aposentado que o garanhão italiano enfrentara nos velhos tempos. Creed dizia que faltava a Rocky os “olhos de tigre”. Isto é, aquela puta vontade de fazer as coisas e consegui-las, por mais impossíveis e improváveis que pudessem parecer. “Era o que você tinha quando nós lutamos”, recorda o doutrinador ao pupilo. Não deu outra: o campeão recuperou o cinturão e foi comemorar nos braços da lânguida Adrian.
Ronaldinho Gaúcho é um craque incontestável, de talento sobrenatural com a bola nos pés. Foi considerado por duas vezes o melhor do mundo, segundo a FIFA; sagrou-se campeão mundial com a Seleção Brasileira, em 2002; foi aplaudido até por torcedores adversários quando envergava as cores anil e grená do Barcelona, entre outros feitos heróicos. No entanto, há alguns anos não consegue repetir atuações convincentes e sempre é comparado consigo mesmo, como um Narciso refletido que torna-se mais belo que o próprio objeto original.
O que a torcida do Flamengo espera de seu novo herói não é o talento extraterreno de Ronaldinho dos tempos de Barcelona. O que se espera é o poder de decisão que ele não teve, por exemplo, quando, aos 47 minutos do segundo tempo, chutou para fora o pênalti que poderia ter dado a vitória do time contra o fraco Macaé; e na cabeçada desferida, de dentro da pequena área, por cima do travessão, contra o igualmente débil Horizonte. Em resumo, para jogar no Mengão não basta ser o melhor do mundo. Tem que ser ‘o cara’ para, quando a chapa estiver mais quente possível, decidir a parada. Exemplos não faltam em nossa história recente: Zico, o maior dentre os maiores, em, nada menos do que 4 títulos brasileiros, um continental e um mundial; Pet, em 2001, e, ao lado de Adriano, em 2009.
Para demonstrar minha superioridade moral e total desprezo por valores homofóbicos e rivalidades locais, olho de tigre foi o que teve o centroavante Fred ao decidir a partida do Mais Florido do Brasil contra o rival portenho, na noite da última quarta, pela Taça Libertadores. A mesma determinação do atacante-surfista contagiou as outras meninas do Laranjal quando da campanha contra o rebaixamento em 2010.
Não adianta um time repleto de craques (o que nem é o caso do atual elenco, longe disso), jogadores comprometidos, disciplinados e um bom treinador. É preciso jogadores que assumam a responsabilidade, ponham a bola debaixo do braço e digam: “vamos ganhar desses merdas agora!”. O que se vê do atual elenco é algum empenho durante os jogos, mas uma certa humildade exagerada, quando se fala na tal invencibilidade, como se esta fosse um grande mal ao grupo. “Uma hora vamos perder”, afirma um. “Não vai durar para sempre”, argumenta outro. “Temos que estar preparados para o momento da derrota”, completa um terceiro. Frases que não me parecem típicas um grupo vencedor, preocupado em fazer história com o Manto Vermelho e Preto.
Se pudesse fazer um único pedido à Comissão Técnica Rubro-Negra este seria: antes da partida contra nosso co-irmão efeminado, façam os jogadores desligarem seus celulares, desconectarem seus twitters e assistam a Rocky III em alto e bom volume. Deixem que a contagiante canção do Survivors tomem seus corpos e mentes. E, ao entrarem em campo no próximo domingo e verem as camisas purpurinadas de nosso rival esquisitão, façam mais uma vez prevalecer a supremacia do Manto Sagrado Encarnado e Negro. Não permitam que restem dúvidas sobre qual é o clube mais vezes campeão do estado, hexacampeão brasileiro, campeão do continente e do mundo. A hora da verdade se aproxima.

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